terça-feira, 14 de setembro de 2010

O Culto deve ser Cristocêntrico

            A coisa mais comum hoje é ver nas fachadas das igrejas grandes cartazes com promessas de milagres, curas e vida feliz, bastando para isso apenas ir a um dos cultos anunciados: cultos dos milagres, culto das 5 semanas de oração, culto da cura divina (ou miraculosa), culto “disso”, culto “daquilo”. Quando na verdade “não existe base bíblica para transformarmos o momento do culto coletivo da igreja, numa sessão de curandeirismo (Efésios 5.18-20)” [1]afirma Arival Dias Casimiro.
            E apesar das novidades que surgem a cada dia, a vida e o culto cristão no decorrer da história, foram revestidos de roupagens que não condiziam com a sã doutrina. Inúmeras vezes, cristãos se afastaram da verdadeira motivação que gira em torno do culto cristão, que deve ser a centralidade de Cristo.
            No que diz respeito ao sobrenatural, aos milagres e curas, o questionamento não consiste na dúvida de que Jesus pode curar. A questão é a motivação das curas, o real propósito dos milagres. Porque a realidade é que o contentamento do homem deve estar única e exclusivamente centrado em Jesus. Não adianta ter um corpo são e uma alma condenada à perdição. “O missionário David Brainerd morrendo aos vinte e nove anos de idade, após rigoroso desgaste na evangelização dos índios norte-americanos, disse: ‘Não teria gasto minha vida de outro modo por causa alguma no mundo.’”.[2] Isso é viver uma vida centrada em Cristo, em como é possível ser usado em sua obra e não em como Cristo pode ser usado pelo homem. A centralidade de todo culto deve estar em Cristo, na adoração genuína ao Eterno e não apenas naquilo que Ele pode nos fornecer.          
            A grande marca do culto na igreja primitiva era a simplicidade, segundo George Eldon Ladd,  “além da adoração no templo, há também reuniões nos lares cristãos (Atos 2:46; 5:42), para o partir do pão e comunhão na refeição”.[3] Ou seja, os cristãos se reuniam para adoração, oração e comunhão de maneira simples. Os cristãos tinham uma concepção diferente da que se tem hoje ao que se refere à igreja.          Para os cristãos primitivos a “igreja significava um corpo de pessoas numa relação pessoal com Cristo.” Assim, reuniam-se “em casas (At.12:12;Rm.16:5,23;Cl.4:15;Fm.1-4), no templo (At. 5:12), nos auditórios públicos de escolas (at. 19:9) e nas sinagogas até quando foram permitidos (At. 14:1,3;17:1;18:4).” Para esses cristãos “o lugar não era tão importante como o propósito de encontro para comunhão uns com os outros e para o culto a Deus.”[4]
            Nada pode ocupar o lugar de Cristo no culto, caso contrário, não será este um culto genuinamente cristão. Quando Paulo escreve aos corintos, uma das palavras que ele usava para se referir a algumas atitudes dos irmãos era que esses haviam se ensoberbecido , ou seja, se achavam mais espirituais, portanto, superiores aos outros, e até mesmo superior a Paulo. A espiritualidade dos corintos, entre eles, passou a ser medida pelos dons espirituais que tinham. O seu culto estava se tornando antropocêntrico, e Cristo e sua obra era deixada de lado.
            O mesmo que aconteceu naquele período da igreja acontece hoje de forma que, apesar de estarem cronologicamente distintas, tornam-se semelhantes em sua prática. Em muitas igrejas a ênfase primária é no Espírito Santo e em sua obra. Quando, na verdade, o Espírito Santo sempre aponta para Cristo.
            Muitos cultos giram em torno, apenas, das curas e experiências místicas. Mas o que essas experiências místicas ensinam acerca de Jesus? Augustus Nicodemus Lopes afirma que “nós temos movimentos de cura, de línguas, de profecias de “dente de ouro”, de batalha espiritual, de prosperidade, de “louvorzão”...mas nunca ouvi falar, em nossos dias, de um movimento que procurasse conscientemente promover a pessoa de Cristo”. Ele acrescenta que não há um movimento que tenha como centro explícito a doutrina da Pessoa de Cristo e de sua obra.          [5]
            É marcado na história que o movimento pentecostal, na grande maioria, tem colocado o Espírito Santo no centro do culto ao invés de colocar Cristo, quando, na verdade o próprio Espírito age para que Cristo seja glorificado no culto. “Se Jesus não for o centro e não receber a glória e a honra que lhe são devidas como Cabeça da igreja, como o Filho único de Deus e o Senhor de tudo e de todos, então tais coisas não procedem do Espírito Santo.”[6] Esta afirmação tem como base 1Coríntios 12:4-6.
            Um exemplo histórico de uma heresia que tentou transformar o Espírito Santo como centro do culto é vivida por Montano, um cristão da Frígia que viveu no  século II. Ele declarou que recebeu uma revelação direta do Espírito Santo de que seria seu representante e lideraria a igreja durante seu último período aqui na terra. Montano foi responsável por fundar uma seita que buscava a renovação na igreja no entusiasmo, dons, poder e sinais ocorridos durante o período apostólico. E devido aos abusos ocorridos no movimento montanista, este foi considerado uma heresia e findou no século VI.[7] 
            Olson, ao relatar a heresia de Montano indaga: “Estaria o montanismo, ou algo semelhante, ainda em pleno vigor na era moderna?” E acrescenta que “sempre e onde quer que a profecia for elevada a uma posição igual, ou superior, às Escrituras, lá estará o montanismo em ação.” Concluindo que “assim como o gnosticismo, o montanismo desafiou a igreja primitiva e desafia a igreja moderna a pensar e reagir teologicamente para impedir que o cristianismo se transforme em tudo e nada e, portanto, em uma coisa qualquer.           [8]
            É preciso sempre observar e analisar as práticas litúrgicas, as doutrinas e verificar se elas condizem com as Escrituras, caso contrário, tais práticas devem ser inaceitáveis. É preciso ser como os crentes de Beréia e colocar em pauta tudo aquilo que transgride os mandamentos bíblicos.
            Diante da atual “onda de curas e milagres” é preciso que a igreja esteja focada e  comprometida a estudar seriamente as escrituras de maneira profunda para fazermos a apologia da nossa fé de maneira consistente e coerente.       Atentar sempre que o centro do nosso culto é Cristo, e que os milagres são conseqüências da sua graça que é derramada sobre nossa vida da maneira que melhor lhe aprouver.
            É preciso esclarecer que não foi negado o fato real de podermos clamar a Deus por milagres, mas que estes não são mais importantes do que Cristo e o relacionamento que devemos a cada dia estar desenvolvendo com Ele.          Alguns cultos que mencionam tão pouco Jesus que fazem Dele “quase como uma nota de rodapé”[9]. Que se possa fazer diferente em meio a tanta confusão teológica. Que Cristo possa ser sempre o Título Principal, e não mais beirar as notas de rodapé.



[1] CASIMIRO, Arival Dias. Curas Hoje, in Teologia para o povo de Deus: 13 estudos bíblicos acerca dos temas teológicos atuais – Revista educação Cristã – Volume III.  São Paulo: Socep. p. 24.
[2] SHEDD, Russell P. Alegrai-vos no Senhor: uma exposição de Filipenses. São Paulo: Edições Vida Nova, 1984. p.106
[3] LADD, George Eldon. Teologia do Novo Testamento;  tradução de Darci Dusilek e Jussara Marindir Pinto Simões Árias – 1ª Edição – São Paulo: Exodus, 1997. p.329
[4]CAIRNS, Earle E. O cristianismo através dos séculos: uma história da igreja cristã. Tradução de Israel Belo de Azevedo – 2ª edição – São Paulo: Vida Nova, 1995. p. 67-68
[5] LOPES, Augustus Nicodemus. O culto espiritual: um estudo e 1 Coríntios sobre questões atuais e diretrizes bíblicas para o culto cristão. São Paulo: Cultura Cristã, 2004. p.101
[6]Idem, p.98
[7]Idem, p.101.
[8] OLSON, Roger E. História da Teologia Cristã: dois mil anos de tradição e reformas. Tradução Gordon Chown – São Paulo: Ediora Vida, 2001. p.32
[9] LOPES, Augustus Nicodemus. O culto espiritual: um estudo e 1 Coríntios sobre questões atuais e diretrizes bíblicas para o culto cristão. São Paulo: Cultura Cristã, 2004. p.103

1 comentários:

  1. Boa exortação, Paulinha. Que Papai nos dê direção e continue usando você, Juanito e Guigui
    abração

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